Palestra inaugural

Os Territórios
de Fronteira

de Filipa Rosário, Inês (tem dias) e Tomé Saldanha Quadros


ESE - IPVC
Biblioteca
↘11:00h

Nas margens das paisagens de fronteira da realidade que nos rodeia ou atmosferas encenadas, Chris Marker em Sans Soleil (1983) questiona o seguinte: “Pergunto-me se estes sonhos são realmente meus, ou se fazem parte de um conjunto, de um sonho coletivo gigantesco, do qual a cidade seria uma projeção”. No limbo entre a instabilidade do real e da construção da realidade, o território cinematográfico convoca as fronteiras da cidade-mundo, as quais remetem para “Modos de Fazer Mundo” de Nelson Goodman (1978).

A ideia de território de fronteira convoca o conceito de zona liminar – um limite – que tanto marca uma distância como também une espaços distintos e distantes - o ecrã é, por excelência, um território de fronteira, por fazer a ligação entre nós, espectadores, e a representação de mundos vibrantes, imagens em que imergimos. Nestes universos, os limites rearticulam-se: o central pode tornar-se periférico e o marginal pode adquirir centralidade, seja na composição de uma imagem como na abordagem a um tema. Exemplos desta dinâmica podem ser encontrados no cinema português: o cinema de mulheres, atualmente em voga, é um deles. Filipa Rosário falará sobre a história da produção do filme O Movimento das Coisas (1985/2021) de Manuela Serra, exemplar para compreender como um filme grandioso sobre o mundo e sobre mulheres e realizado por uma mulher foi “cancelado” à data da sua finalização, tornando-se num objeto marginal, para, quase 40 anos depois, transformando-se num filme de culto, com bastante circulação no circuito alternativo de exibição, hoje uma obra central na filmografia nacional. Por seu turno, na fronteira entre o Lugar e o Não-lugar, instala-se num território ambíguo, onde o espaço, como o conhecemos, deixa de ser definido apenas pelas suas características, para passar a ser um espaço que depende de relações que nele se constroem, ou a ausência delas. O “não-lugar”, como nos arquiteta Marc Augé (1992), é um território sem identidade, sem história partilhada e sem relações significativas. O indivíduo é regularmente reduzido a um estado transitório; “Ermo” - uma narrativa sem verdade absoluta, apenas com perspetivas de verdade - propõe uma viagem em percursos transitórios: o espaço não é essencialmente lugar ou não-lugar, mas torna-se um ou outro em função das relações que nele se vivenciam. O encontro cria lugar; a sua ausência traz o vazio. Do conceito à materialização do mesmo, Inês (tem dias) vai contar como foi o seu processo de concretização, as intenções das suas escolhas, um livro-objeto que tem em si espaço para múltiplas interpretações: tem dois inícios, e o fim encontra-se a meio. Tal como argumenta John Berger (1972) em “Modos de Ver”, ver não é um ato neutro, não existindo uma única forma de ver, mas sim múltiplas perspetivas condicionadas por códigos culturais, mas também pelas experiências e referências absorvidas de quem olha; O Ermo materializa essa ideia.

Em síntese, na atualidade é possível observar as margens das imagens visuais e sonoras são paisagens de fronteira em sucessivas tentativas de registo. Este jogo das atmosferas encenadas mimetiza o que fomos ou somos e no que poderemos vir a tornar a ser: O que significa a imagem? E que paradoxos e tensões suscitam?

Palavras-chave: cinema; fronteira; livro-objeto; tempo; território


Filipa Rosário

Filipa Rosário

Filipa Rosário pesquisa sobre cinema, paisagem e contemporaneidade. É investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, onde leciona. Tem publicado com frequência sobre cinema português. Mais recentemente, organizou o livro O Tempo e a Terra: Ensaios sobre O Movimento das Coisas de Manuela Serra (2025), tendo co-organizado também Um Olhar Português: Cinema e Natureza no Século XXI (com José Duarte, 2024), ReFocus: The Films of João Pedro Rodrigues and João Rui Guerra da Mata (com José Duarte, 2022), O Quarto Perdido do MoteLX. Os Filmes do Terror Português (1911-2006) (com João Monteiro, 2022), New Approaches to Cinematic Space (com Iván Villarmea Álvarez, 2019), entre outros livros. É autora de O Trabalho do Actor no Cinema de John Cassavetes (2017).


Inês (tem dias)

Inês (tem dias)

É licenciada em Artes Visuais e Tecnologias Artísticas (ESE/PP 2012-2015), tendo posteriormente aprofundado a sua formação com uma pós-graduação em Ilustração e Animação Digital (ESAD 2023). O seu percurso cruza diferentes áreas da criação visual, com especial foco na ilustração e na animação, explorando narrativas visuais contemporâneas e abordagens experimentais, juntando o universo digital e o analógico. Participou na exposição “100 Years of Portuguese Animation”, integrada no festival Cinanima no ano 2023, com a curta de animação colaborativa “Dust” (sob orientação do realizador José Miguel Ribeiro), destacando-se no panorama emergente da animação portuguesa. Para além do contexto expositivo, fez-se presente em eventos de criação ao vivo, nomeadamente no hackathon de ilustração de 2023 do Clube da Criatividade de Portugal, onde desenvolveu composições visuais ilustrativas para o tema "Traz outro amigo também". Ao longo do seu percurso, colaborou com marcas reconhecidas como Benefit Cosmetics, Bioderma e Tous, reforçando a sua versatilidade e capacidade de adaptação, mostrando uma linguagem autoral capaz de dialogar com o universo comercial, sem perder a sua identidade.


Tomé Saldanha Quadros

Tomé Saldanha Quadros

(ESAD/ ESAD-IDEA, ESE-IPVC)

É doutor em Ciência e Tecnologia das Artes, especialização em Cinema e Audiovisuais, pela Escola das Artes - Universidade Católica Portuguesa, avaliação final de summa cum laude com 19 valores. É Professor Adjunto na Escola Superior de Artes e Design (ESAD, Matosinhos), Diretor Pedagógico e Presidente do Conselho Pedagógico. É membro integrado da unidade de investigação da ESAD, ESAD-IDEA. No programa de Licenciatura em Artes Plásticas e Tecnologias Artísticas, Escola Superior de Educação - Instituto Politécnico de Viana do Castelo, é docente convidado desde 2018. Tomé Quadros é membro da Comissão de Avaliação na Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES, Portugal), na qualidade de perito nacional em investigação e prática artística. Tomé Quadros esteve envolvido na realização e produção artística e projetual. De salientar as publicações académicas: “Social transformation in the eyes of contemporary Chinese cinema and Dogme 95”, capítulo publicado no livro (Inter)cultural Dialogue Through Arts and Media pela Senses Publishers (ISBN: 978- 94-6300-421-3); editor do livro Image in the Post-Millenium: Mediation, Process and Critical Tension (ISBN 978-94-93148-60-4), publicado em parceira pela esad—idea e Onomatopee Publisher.


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